Opinião

A Experiência Psicadélica e o Regresso ao Mundo Participado

Há uma frase que atravessa, de formas diferentes, quase todos os relatos de experiências psicadélicas significativas: “o mundo estava vivo“. Não como metáfora poética, mas como descrição fenomenológica precisa. As árvores parecem respirar; os objectos mais banais… uma chávena, o padrão de um tapete, a luz a refletir numa parede… surgem carregados de significado. Um significado que não parecia inventado pela pessoa, mas já presente nas próprias coisas, à espera de ser notado. É uma experiência tão recorrente na literatura sobre psicadélicos que se tornou quase um lugar-comum. Mas vale a pena parar nela. Talvez esteja a apontar para algo mais interessante do que “um efeito alucinatório”: um modo de perceber o mundo que a nossa cultura moderna nos ensinou sistematicamente a desligar.

O mundo dividido em dois

A nossa forma dominante de compreender a mente, herdada em linha direta de Descartes, assenta numa divisão nítida: de um lado, uma mente privada, interior, que forma representações (imagens mentais, conceitos, planos); do outro, o corpo físico e um mundo exterior de matéria inerte, neutra, desprovida de qualquer significado próprio. Nesta imagem, o significado não está no mundo, ele é acrescentado pela mente que o interpreta. A árvore, objetivamente, é apenas celulose e clorofila; qualquer sensação de “presença” ou “vida” que ela nos suscite é, supostamente, uma projeção subjetiva, sem estatuto no mundo real.

Esta divisão não é um facto neutro sobre a natureza da mente mas uma conquista histórica, relativamente recente, de uma certa civilização. O filósofo britânico Owen Barfield, num livro pouco lido fora de círculos especializados mas de uma clareza notável, chamou a este processo a “retirada da participação“. Argumentou que a consciência humana não é uma constante ao longo da história. Muda de textura. Para os antigos (e ainda hoje para muitas culturas não-industrializadas), o mundo percebido não vinha primeiro nu e depois “interpretado” – pelo contrário, vinha já impregnado de sentido, de presença, de relação. Uma nascente não era água mais um significado espiritual acrescentado por superstição; era percebida, diretamente, como uma coisa viva, participada, sem separação clara entre a coisa e o seu sentido. Barfield chamou a isto participação original.

O que aconteceu, segundo ele, foi um longo processo de expulsão progressiva desse sentido participado para dentro de uma “mente” cada vez mais isolada. Um processo que atravessa a filosofia grega e o cristianismo, e culmina no racionalismo científico dos séculos XVI e XVII. No seu termo, um mundo exterior desencantado: matéria bruta, quantificável, sem qualquer vida ou sentido próprios. Barfield não pretendia que isto fosse um erro corrigível por decreto. Via nisto um desenvolvimento genuíno, até necessário, da consciência humana. Mas notava também o seu custo: um mundo que deixou de falar connosco, e uma mente que se habituou a falar sozinha, fechada sobre as suas próprias representações. A isto Barfield chamava idolatria: adorar as imagens que a própria mente projecta, tomando-as pela realidade que substituem.

A analogia do Lego

Há uma forma simples de tornar isto concreto. Imagine-se um adulto a montar um de Lego seguindo o livro de instruções: olha para o diagrama impresso, decompõe-no mentalmente em passos, procura no monte de peças a peça correspondente, verifica se encaixa, avança para o passo seguinte. A ação é inteiramente mediada por uma imagem interna (o diagrama) que existe antes e independentemente do encontro real com as peças. É este, no fundo, o modelo cartesiano-computacional do comportamento humano: perceber é formar uma representação interna, agir é executar um plano previamente computado contra essa representação.

Compare-se com uma criança a brincar livremente com as mesmas peças, sem instruções, a construir “um barco”. A criança também tem um objetivo. Mas ele não funciona como um diagrama fixo, consultado passo a passo. É mais parecido com uma corrente imaginativa que reorganiza, em tempo real, o que salta à vista no monte de peças: uma peça comprida e estreita convida a ser casco; uma peça redonda, encontrada por acaso, não é rejeitada, mas integrada, e o próprio “barco” que a criança persegue transforma-se ligeiramente com o que o encontro revela. Não há aqui um passo intermédio de comparação com uma imagem interna. Há uma relação viva, direta, entre a criança e as possibilidades que as próprias peças oferecem.

A psicologia ecológica, na linha do percetista americano James Gibson, chama a estas possibilidades affordances. Não são propriedades neutras dos objetos, nem projeções arbitrárias da mente: são convites relacionais que emergem do encontro entre um organismo e o seu ambiente. Esta noção, note-se, resiste estruturalmente à divisão cartesiana entre um mundo objetivo desprovido de sentido e uma mente que lhe acrescenta significado por dentro. É já, nesse sentido preciso, um eco funcional daquilo que Barfield chamava participação.

Onde a experiência psicadélica entra

A investigação recente em neurociência dos psicadélicos tem documentado algo que os relatos fenomenológicos já descreviam há décadas. Alguns estudos associam estas substâncias a uma reorganização temporária da atividade cerebral em torno do contexto vivido, em vez de padrões fixos e habituais de processamento. Sob o efeito de substâncias como a psilocibina ou o LSD, a fronteira habitual entre “eu que interpreto” e “mundo interpretado” torna-se instável, por vezes dissolve-se por completo. As pessoas descrevem tipicamente uma sensação de unidade com o ambiente. Não perdem a perceção do mundo – pelo contrário, descrevem-na como mais vívida, mais imediata, mas já não organizada segundo a partição sujeito-objeto. Um padrão numa parede deixa de ser “matéria neutra à qual acrescento uma interpretação estética” e passa a ser vivido como já significativo em si mesmo. Uma floresta deixa de ser “recurso” ou “cenário” e é sentida como presença, como interlocutora.

É tentador, e talvez apressado, chamar a isto simplesmente “alucinação” ou “distorção percetiva”, como se a perceção quotidiana e desencantada fosse a verdadeira e esta fosse o desvio. Mas há uma leitura alternativa, mais interessante. Talvez a experiência psicadélica não esteja a criar algo do nada, mas a suspender temporariamente o filtro cartesiano-computacional que normalmente organiza a nossa perceção quotidiana. Por baixo dessa camada dominante emerge um modo de perceção relacional e participativa que nunca desapareceu verdadeiramente, apenas foi desqualificado e submerso pela cultura letrada e racionalista em que fomos formados. Não é acaso que tantos relatos pós-experiência descrevam a sensação de estarem, finalmente, a “ver o mundo como ele realmente é“, e não o inverso.

Isto não é exclusivo de nenhuma cultura ou tradição. Encontra-se em relatos de contextos clínicos contemporâneos e seculares, tanto quanto em práticas rituais de longa tradição em diferentes partes do mundo. Vale a pena reconhecer essa diversidade sem a reduzir a uma curiosidade exótica: aquilo que está em causa é uma capacidade humana comum, não uma propriedade cultural de um só lugar.

Psychedelic Snorkeling: uma paródia que acerta sem querer

Nem toda a ilustração desta tese precisa de vir de relatos sérios. Um vídeo recente criado pelo comunicador Jason Silva ilustra esta tese quase na perfeição. Nele vemos um paciente internado com um diagnóstico de “perturbação de hipervigilância existencial“: tem falta de ar apesar de pulmões saudáveis e oxigenação normal; gastou fortunas em ressonâncias e colonoscopias à procura de uma catástrofe fisiológica que nunca chega; e o problema real, diz o “diagnóstico”, não é o mundo lá fora, é o medo da própria respiração.

É uma boa caricatura do extremo oposto da participação Barfieldiana: um sujeito tão fechado sobre a monitorização interna do seu próprio corpo, tão ocupado a verificar-se e a representar-se a si mesmo como um sistema em risco de falha, que deixou de ter qualquer relação direta com o que o rodeia. É o teatro cartesiano levado ao paroxismo clínico. Toda a atenção volta para dentro, para o cálculo e a vigilância da própria máquina, nada sobra para o encontro com o mundo.

O “tratamento” recomendado pelos médicos é, claro, absurdo por desenho. O paciente é equipado com equipamento de mergulho e baixado à “underwater cathedral”, onde continua, a princípio, hiperventilado e a monitorizar o equipamento, não o recife. É só depois de lhe ser administrada uma dose cerimonial de um psicadélico (a piada é evidente e deliberada) que a cena muda de registo. A respiração normaliza, o paciente deixa de vigiar o material e a atenção expande-se para o ambiente, até que a divisão sujeito-mundo colapsa e ele sente fundir-se com a corrente, com o coral, com a vida marinha.

O que este vídeo capta de forma brilhante, mesmo sem se propor a fazê-lo a sério, é precisamente a estrutura aqui antes descrita. Existe a possibilidade de suspensão progressiva da vigilância representacional a favor de uma relação direta e participada com o Mundo. E o fecho da cena é, sem exagero, um bom argumento a favor da tese de Barfield, quando, de volta à superfície, entregam ao paciente uma bebida com a etiqueta “bem-vindo de volta ao consenso”… e a única coisa que consegue dizer, depois de tudo, é “uau”. Não uma frase, não uma explicação, mas uma palavra que regista a insuficiência radical da linguagem representacional perante aquilo que acabou de ser vivido. O episódio faz aqui uma observação séria: a experiência participativa resiste sistematicamente à tradução para o género de discurso articulado que a cultura letrada exige de nós quando voltamos e nos perguntam “o que foi que aconteceu, exatamente?”.

Nem regressão, nem enfeitiçamento — uma recuperação possível

A objeção óbvia a este argumento é previsível. Isto não é regresso ao pensamento mágico, uma renúncia à razão conquistada a duras penas pela civilização ocidental? O próprio Barfield já antecipava esta tensão, e a sua resposta é subtil. Distinguia entre uma participação original (inconsciente, coletiva, anterior a qualquer separação sujeito-objeto) e aquilo que chamava participação final: uma recuperação deliberada e consciente daquilo que na participação original era automático. Não se trata de desfazer a capacidade de distinção crítica, analítica, conquistada pelo pensamento racional. Trata-se, isso sim, de a integrar com um modo de perceção que essa mesma racionalidade tinha aprendido a desqualificar como “mera subjetividade” ou “ilusão”.

Tudo isto tem uma implicação prática interessante, e talvez seja a mais importante de todas: um vislumbre de participação, por mais intenso e transformador que pareça no momento, tende a desvanecer-se se a pessoa regressar a um ambiente quotidiano inteiramente organizado segundo a lógica desencantada e fragmentada de sempre. Trabalho isolado, espaços sem relação comunitária, ausência de qualquer prática que sustente e integre o que foi entrevisto. Muitos relatos de “insights” psicadélicos que se dissipam ao fim de semanas talvez não sejam falhas da substância, mas sintomas exatos disto. Um vislumbre sem nicho que o sustente regressa, inevitavelmente, à idolatria por defeito da vida moderna. A pergunta interessante deixa de ser apenas “o que acontece durante a experiência” e passa a ser “que tipo de vida, de relações, de práticas quotidianas,permitem que aquilo que foi vislumbrado se torne, com o tempo, uma forma estável e consciente de habitar o mundo — em vez de uma memória cada vez mais distante de uma tarde extraordinária, ou, como diria o paciente no video, um simples ‘uau’ que se esbate assim que se regressa ao consenso”.

Fica por explorar, e a literatura ainda não tem resposta consolidada: que condições concretas (comunitárias, rituais, ecológicas) permitem transformar um vislumbre psicadélico transitório numa reconquista duradoura do sentido participado, em vez de uma memória que se apaga com o regresso à rotina?

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