Um estudo longitudinal publicado no Journal of Psychopharmacology acompanhou mais de 240 mil pessoas no Reino Unido durante a pandemia de COVID-19 e identificou um padrão surpreendente: indivíduos que utilizaram psicadélicos e cannabis apresentaram melhorias significativas nos sintomas de ansiedade e depressão, alcançando níveis comparáveis aos de pessoas que nunca usaram drogas ilícitas.
A investigação, liderada por Maria Bălăeţ do King’s College London, utilizou dados do Great British Intelligence Test. Os participantes foram avaliados entre dezembro de 2019 e janeiro de 2022, abrangendo o pico da pandemia e o período posterior. Os resultados contrariam o padrão observado noutros grupos de utilizadores, que mantiveram ou pioraram a sua saúde mental. Utilizadores exclusivos de cannabis reportaram consistentemente piores indicadores sem melhorias significativas. O grupo que combinava psicadélicos e cannabis começou o estudo com pontuações de depressão e ansiedade mais elevadas. No entanto, até ao final do acompanhamento, as pontuações de depressão diminuíram cerca de um quarto de desvio-padrão e os níveis de ansiedade registaram quedas semelhantes, normalizando-se.
“Estes resultados emergem de um estudo observacional de uso naturalista, não de administração controlada num contexto clínico”, explica Bălăeţ. A investigadora sublinha a importância do contexto: o agravamento ocorreu durante a crise aguda, enquanto a normalização surgiu em tempos mais calmos. O estudo apresenta limitações importantes. Não foi possível estabelecer relações causais definitivas, falta informação sobre dosagens, frequência e contexto das experiências. Bălăeţ alerta para a variabilidade individual: “São efeitos médios do grupo, e houve notável variabilidade dentro de cada grupo.”
A investigação sugere que os psicadélicos podem desempenhar um papel distinto na saúde mental durante períodos de stress coletivo, mas são necessários estudos futuros que examinem timing, frequência e contexto de uso.
