Cultura

A História Esquecida das Mulheres na Terapia Com o Uso de Psicadélicos

A historiadora Zoë Dubus, do Instituto Nacional de Saúde e Investigação Médica de Paris, tem dedicado o seu trabalho a recuperar o legado das mulheres que, nas décadas de 1950 e 1960, desempenharam um papel determinante na transformação da forma como as substâncias psicadélicas passaram a ser administradas em contexto clínico. Em entrevista à newsletter The Microdose, Dubus destaca três figuras centrais – Margot Cutner, Joyce Martin e Betty Eisner – cuja influência permanece largamente ausente das narrativas históricas dominantes.

Segundo a investigadora, Cutner, Martin e Eisner foram pioneiras na introdução de umaabordagem terapêutica centrada no apoio emocional, na criação de ambientes seguros e acolhedores e, em alguns casos, na utilização consciente e intencional do toque físico como ferramenta psicoterapêutica. O seu trabalho acabou assim por lançar as bases de muitas práticas que hoje são consideradas fundamentais, como o cuidado relacional, o acolhimento do paciente e a personalização das sessões. Quem foram estas mulheres e o que fizeram?

Margot Cutner

Psicanalista e filósofa, trabalhou no Hospital de Powick, em Inglaterra, durante os anos de 1950. A sua abordagem distinguia-se pela ênfase no papel da presença terapêutica e do ambiente envolvente, reconhecendo que estes fatores moldavam profundamente a experiência psicadélica, muito antes de conceitos como set & setting se tornarem correntes.

Betty Eisner

Psicóloga americana que trabalhou em Los Angeles, é frequentemente associada à recomendação de que as sessões com LSD incluíssem a presença de terapeutas de ambos os géneros, com o objetivo de reforçar a segurança emocional, a confiança e o sentimento de proteção do paciente.

Joyce Martin

Psicanalista e psiquiatra em Londres, acompanhou milhares de pessoas em terapia com LSD. Em colaboração com Pauline McCririck, desenvolveu uma técnica a que chamou “fusão”, na qual o contacto físico gradual (segurar as mãos, abraçar ou simplesmente deitar-se ao lado do paciente) era integrado, de forma ética e intencional, como parte do processo terapêutico, sobretudo em casos de privação afetiva profunda.

A história destas mulheres na terapia psicadélica é, simultaneamente, uma narrativa de inovação, sensibilidade clínica e invisibilidade histórica. Recuperar os seus contributos não só enriquece a compreensão do passado, como reforça a importância de práticas mais humanas, éticas e centradas na pessoa para o futuro da terapia assistida por psicadélicos.

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