A terminologia usada para descrever doses de psicadélicos permanece inconsistente entre laboratórios, ensaios clínicos e comunidades de uso naturalista. A ausência de um vocabulário partilhado dificulta a comparação de estudos, a comunicação de risco e a interpretação de resultados terapêuticos. Num artigo publicado na Drug Science, Policy and Law, Vince Polito responde a uma proposta recente de David Nutt e colegas para um léxico comum, com categorias de dose transversais a várias substâncias psicadélicas.
Embora reconheça o valor do esforço de padronização, Polito identifica quatro problemas centrais. Primeiro, a definição de microdose como subperceptiva (abaixo do limiar de efeitos subjectivos evidentes) não corresponde aos dados disponíveis: quer em ensaios controlados, quer em contextos naturalistas, as doses habitualmente descritas como microdoses produzem efeitos subjectivos discretos, ainda que ligeiros. Segundo, e relacionado com o anterior, Nutt e colegas afirmam que microdoses são indistinguíveis de placebo, mas vários estudos empíricos mostram que os participantes conseguem, em geral, distinguir uma da outra, o que tem implicações para o desenho de ensaios duplo-cego (aqueles em que nem participantes nem investigadores sabem quem recebe substância activa).

Terceiro, alguns rótulos propostos afastam-se da terminologia consolidada na literatura científica e na própria comunidade psicadélica, criando fricção entre normas académicas e uso corrente. Quarto, as categorias foram definidas sobretudo através de estimativas pontuais, deixando ambíguo o modo de classificar doses que caem em zonas intermédias, entre limiares.
Como alternativa, o autor apresenta um esquema simplificado assente em três categorias: microdose, minidose e macrodose. Cada uma destas categorias está delimitada por intervalos claros e alinhada com normas culturais correntes. A proposta procura conciliar rigor científico e legibilidade, oferecendo pontos de referência estáveis tanto para investigadores como para clínicos e utilizadores informados. Polito enquadra o seu contributo como refinamento, e não substituição, do trabalho de Nutt e colegas.

Fica em aberto o modo como estas categorias serão adoptadas por revistas científicas, agências reguladoras e programas de redução de riscos, num campo em rápida institucionalização.
