Cultura

Serão a Comunidade e o Encontro as Verdadeiras Medicinas Psicadélicas?

Num texto publicado na edição de 8 de abril de 2026 da DoubleBlind, Colin Pugh defende a ideia de que, na área dos psicadélicos, há atualmente um desalinhamento fundamental entre onde estão a ser investidos os recursos e onde reside o seu verdadeiro potencial de impacto. A metáfora do basquetebol ilustra bem este ponto: após décadas de investigação que legitimaram os benefícios dos psicadélicos — tal como teria acontecido com o basquetebol — o investimento concentra-se sobretudo em estruturas de elite (equivalentes à NBA), como clínicas e modelos terapêuticos altamente especializados. No entanto, a grande maioria das pessoas não vai aceder a esses contextos, tal como a maioria dos praticantes de basquetebol não joga em ligas profissionais. A ausência de investimento em clubes desportivos e courts locais de basquetebol — neste caso, comunidades psicadélicas, redes de apoio, e espaços não clínicos — leva a que as pessoas acabem por explorar estas substâncias de forma isolada, desestruturada e potencialmente insegura.

O autor argumenta que estas comunidades são, na prática, o ponto de entrada mais comum para quem se interessa pelo uso terapêutico de psicadélicos fora de contextos clínicos. É nesses espaços que se podem desenvolver normas de segurança, práticas de redução de risco e culturas de apoio mútuo. Historicamente, o uso de psicadélicos esteve quase sempre integrado em contextos comunitários, onde a experiência era enquadrada, partilhada e processada em conjunto. Isto sugere que os efeitos dos psicadélicos não são apenas farmacológicos, mas profundamente moldados pelo contexto social e relacional. Ainda assim, o modelo dominante atual privilegia ambientes clínicos isolados, ignorando em grande medida esta dimensão histórica e cultural. O resultado é um sistema que, embora sofisticado do ponto de vista médico, pode ser pouco representativo da forma como as pessoas realmente usam e integram estas substâncias.

Uma das razões apontadas para esta falta de investimento no nível comunitário é o receio de que incidentes negativos — como mortes ou abusos — possam comprometer o avanço do campo. No entanto, o autor considera este argumento ultrapassado, lembrando que já ocorreram eventos negativos sem que isso tenha travado significativamente o progresso científico ou social dos psicadélicos. Pelo contrário, defende que comunidades bem estruturadas, com protocolos éticos, formação adequada e recursos suficientes, poderiam reduzir esses riscos de forma mais eficaz do que o atual cenário informal e pouco apoiado. Tal como um campo de basquetebol seguro reduz o risco de acidentes comparado com jogar na rua, também comunidades organizadas podem oferecer enquadramento e proteção.

Outro ponto central do texto é a questão da escalabilidade. O modelo clínico, embora importante, é caro, complexo e difícil de expandir. Requer infraestruturas, formação especializada e regulação rigorosa, o que limita o acesso a uma minoria, frequentemente de classes socioeconómicas mais elevadas. Em contraste, os modelos comunitários são intrinsecamente mais acessíveis e escaláveis, podendo apoiar várias pessoas em simultâneo e funcionar com base em redes de pares, facilitadores e voluntários. Além disso, o autor sugere que, mesmo que alguém tenha uma primeira experiência num contexto clínico, é provável que procure alternativas mais acessíveis posteriormente, sobretudo quando percebe que pode ter acesso a estas substâncias de forma mais simples e económica.

Finalmente, o texto sublinha que o verdadeiro motor do movimento psicadélico não são as instituições, mas sim as pessoas que tiveram experiências transformadoras e querem partilhá-las. A mudança não resulta apenas de um “efeito químico”, mas da profundidade da experiência e da forma como esta é integrada na vida quotidiana. E essa integração acontece sobretudo em relação com os outros — através de conversas, apoio, práticas partilhadas e vida em comunidade. Assim, o autor defende que a comunidade não é um complemento opcional ao modelo clínico, mas sim um elemento central para que os benefícios dos psicadélicos possam realmente enraizar-se e gerar transformação duradoura. A atual concentração de recursos em abordagens clínicas ignora esta realidade e arrisca limitar o impacto do campo a uma pequena fração da população. A conclusão é clara: se quisermos integrar os psicadélicos de forma eficaz e acessível na sociedade, é essencial investir na construção e fortalecimento de comunidades — porque, no fundo, a comunidade é a verdadeira medicina.

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