Há perguntas que têm surgido cada vez com mais insistência dentro da comunidade psicadélica: estão as mulheres, de novo, a ser deixadas para trás? Estão as diferenças entre sexos a ser consideradas na investigação? Estão os ensaios clínicos e os retiros atentos às questões de género? Há uma inquietação que atravessa todas estas questões: estará um dos campos mais inovadores e promissores da investigação a repetir velhos padrões, centrando-se sobretudo no corpo e na experiência masculina?
Durante décadas, quando os estudos científicos na área da medicina mencionavam as palavras “voluntários”, “pacientes” ou “participantes”, estavam, na prática, quase sempre a falar de homens. Até ao início dos anos 90, as mulheres foram sistematicamente excluídas ou sub‑representadas na investigação biomédica: por haver um viés de género enraizado, por terem corpos mais “complicados” de estudar e, durante um período prolongado, por causa de diretrizes legais e políticas que recomendavam a sua exclusão em idade reprodutiva. Como resultado, grande parte da evidência científica sobre o “corpo humano” foi construída a partir do corpo masculino.
O impacto desta tendência ainda se faz sentir hoje em dia: as mulheres demoram mais tempo a ser diagnosticadas com algumas doenças, têm maiores taxas de mortalidade quando sofrem doença cardíaca e sofrem mais efeitos secundários adversos de medicamentos antidepressivos, analgésicos e antiepiléticos porque, tipicamente, as doses foram baseadas em ensaios clínicos conduzidos quase exclusivamente em homens. A cada vez mais falada Medicina Sensível ao Sexo e Género (Sex and Gender Sensitive Medicine – SGSM) não é uma ideia nova, mas ainda não é prática dominante. Parte de uma ideia simples, mas com implicações profundas: o sexo e o género influenciam a forma como as doenças se manifestam, como são diagnosticadas, como os tratamentos funcionam e toda a experiência terapêutica.

Por isso, não basta incluir mulheres nos ensaios clínicos e nos estudos: é preciso – como ditam as boas práticas – fazer uma análise dos resultados por sexo. Caso contrário, o que se obtém é uma média que não revela as diferenças entre homens e mulheres. A investigação em psicadélicos tem, com frequência, replicado estes erros conhecidos. Uma revisão que analisou estudos sobre o uso de psicadélicos em perturbações por uso de substâncias mostra que, em muitos, as mulheres estão sub-representadas e que a maioria não analisou diferenças por sexo.
Entre estudos que avaliam os efeitos dos psicadélicos no cérebro, com recurso a neuroimagem, encontram-se alguns exclusivamente com participantes masculinos ou que não divulgam a proporção de sexos e muitos que não incluem também análises separadas.
No entanto, sabe-se que essas diferenças existem e podem estar longe de ser subtis, pelo que tem sido defendido que é necessário que o trabalho com mulheres seja informado do ponto de vista hormonal. O sistema serotoninérgico — o principal alvo de substâncias como a psilocibina — é diretamente influenciado por hormonas como o estrogénio, o que significa que as interações estrogénio-serotonina podem influenciar o efeito dos psicadélicos em participantes do sexo feminino, tanto em diferentes fases da vida – como a puberdade, idade adulta/reprodutiva, perimenopausa e pós-menopausa – , como ao longo do ciclo menstrual. Também estudos comparativos com MDMA mostram que os efeitos psicoativos são mais intensos nas mulheres do que nos homens e registam-se efeitos adversos agudos e sequelas com mais frequência nas participantes femininas.
Por outro lado, assim como o sexo molda a resposta fisiológica à substância, o género molda a experiência. E, nos psicadélicos, a experiência é quase tudo. Sabe-se, por exemplo, que a confiança no ambiente não é neutra: as mulheres têm uma maior perceção de risco e, sobretudo em contextos desconhecidos, sentem-se menos seguras, ficam mais hipervigilantes e sentem mais ansiedade. Esta sensação de insegurança e vulnerabilidade, física e emocional, pode condicionar muito a experiência.

Por outro lado, as mulheres viveram com mais frequência situações de abuso e trauma, sobretudo sexual, e isso pode influenciar profundamente a experiência psicadélica, havendo um risco de re-traumatização sem um suporte terapêutico adequado. Estas diferenças ganham um peso particular fora dos ambientes clínicos, onde a existência de códigos éticos, protocolos e acompanhamento por terapeutas treinados garantem segurança. Em retiros e cerimónias, onde as regras são menos claras e os facilitadores nem sempre têm formação adequada, o impacto pode ser maior.
Além destes riscos psicológicos, há riscos reais. Um estudo recente com mais de 1 200 pessoas que usaram psicadélicos fora de contextos clínicos mostra que cerca de 8 % dos participantes relatou conhecer alguém que foi vítima de contacto sexual inadequado por parte de um guia ou sitter — um risco que pode afetar todas as pessoas, mas tende a ser relatado com mais frequência por mulheres.
Como resposta a todas estas preocupações, têm surgido retiros e oferta de experiências com psicadélicos exclusivos para mulheres, para promover mais segurança física e psicológica, longe das dinâmicas de poder e vulnerabilidade que podem surgir em grupos mistos. No fundo, a questão não é apenas científica: é também ética e humana. Continuar a ignorar o género e o sexo não significa apenas perder dados científicos importantes — significa colocar em risco a eficácia e a segurança da experiência. Estudar melhor as diferenças biológicas e psicológicas das mulheres e integrar esse conhecimento – dentro e fora do contexto clínico – é essencial para que a promessa terapêutica dos psicadélicos se concretize de forma segura e inclusiva para todos, mas também para todas – sem deixar as mulheres, de novo, para trás.
