Salões Psicadélicos

Salão Psicadélico SafeJourney Dá Luz ao Lado Feminino dos Psicadélicos

O SafeJourney levou ao 8 Marvila mais uma edição do seu Salão Psicadélico, desta vez dedicado a um tema ainda pouco explorado no espaço público: a relação entre mulheres e substâncias psicadélicas. Durante duas horas, um painel exclusivamente feminino discutiu ciência, clínica, história e prática cerimonial, perante uma audiência atenta e composta pela comunidade curiosa que procura informação fidedigna sobre esta área em expansão.

A sessão foi aberta por Laura Carvalho, da SafeJourney, e moderada pela economista e comentadora Susana Peralta. Da apresentação inicial ao encerramento, o fio condutor manteve-se claro: perceber o que muda quando os psicadélicos são olhados a partir do corpo, da vivência e da história das mulheres.

Gisela Duarte, psicóloga e fundadora do projeto PsicaDELAS, centrou a sua intervenção no corpo feminino e no ciclo hormonal, sublinhando como a maioria da investigação foi desenhada a partir de amostras masculinas. Falou sobre fases do ciclo menstrual em que a experiência pode ser mais intensa ou mais vulnerável e sobre as diferenças observadas em práticas como a microdosagem.

Inês Figueiredo, psiquiatra da Associação SPACE, trouxe a perspetiva da terapia assistida por psicadélicos (TAP). Abordou as especificidades das mulheres em cada fase do protocolo — preparação, sessão e integração —, a sensibilidade a doses, os efeitos adversos e as interações medicamentosas, defendendo ajustes clínicos que garantam segurança real às pacientes.

Inês Macedo, psiquiatra da equipa Kosmicare, deteve-se sobre a redução de riscos em contextos recreativos e festivaleiros. Apontou vulnerabilidades específicas que continuam pouco nomeadas no terreno e discutiu diferenças entre psicadélicos clássicos, MDMA e ketamina, propondo cuidados que, no seu entender, deveriam já ser padrão.

Maria do Mar Gago, historiadora e investigadora, ofereceu o enquadramento histórico. Questionou se a ausência de mulheres na narrativa dos psicadélicos corresponde a uma ausência real ou a uma história escrita a partir de um olhar masculino, e recuperou figuras femininas invisibilizadas — incluindo o papel, ainda pouco documentado, das mulheres portuguesas no uso, facilitação e investigação destas substâncias.

Fechou o painel Satya, facilitadora e fundadora da Working With Satya e da Awareness Facilitator School, com 18 anos de trabalho em processos de transformação humana em vários países. Convidada a intervir em fóruns como as Nações Unidas e o Milken Institute, integra ainda o Medical Psychedelics Working Group da Drug Science. A sua contribuição focou-se na curadoria cerimonial: como o set and setting pode responder às vulnerabilidades femininas, o que muda quando a facilitadora é mulher, e se fazem sentido espaços exclusivamente femininos.

À pergunta final, sobre o que precisa de mudar para que o campo psicadélico integre verdadeiramente a perspetiva feminina nos próximos cinco anos, o painel convergiu na necessidade de investigação sensível ao sexo e género, protocolos clínicos ajustados e uma cultura de cuidado que reconheça diferenças em vez de as apagar.

Em baixo um vídeo com um excerto da conversa, cuja versão completa está disponível na íntegra a Membros SafeJourney.

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