Um grupo de psicólogos lançou uma petição para que a American Psychological Association (APA) crie uma Divisão de Ciência e Prática Psicadélica. A proposta mostra que a psicologia tem hoje mais peso na investigação com psicadélicos e na sua chegada à prática clínica.
A American Psychological Association tem mais de 190 mil membros. Organiza-se em dezenas de divisões, umas dedicadas a disciplinas, como a psicologia social ou a educacional, e outras a áreas de interesse específicas. A proposta, publicada em outubro de 2026, defende que a ciência psicadélica se tornou uma área distinta e em rápida expansão, e que por isso justifica uma estrutura própria.
A comissão promotora reúne dez psicólogos, entre eles Matthew W. Johnson, um dos autores mais citados em ensaios clínicos com psilocibina. Segundo o documento, a divisão abrangeria:
- os mecanismos psicológicos de mudança e os estados alterados de consciência
- a triagem, a preparação e a integração (o acompanhamento psicológico antes e depois da experiência)
- a ética, a segurança e a humildade cultural
- a redução de riscos dirigida a clínicos que não prescrevem
- as políticas públicas
- a formação contínua
Os proponentes distinguem a iniciativa da Divisão 55, que se centra na psicofarmacologia segundo um modelo médico. Apresentam a nova divisão como complementar a essa.
Pelos estatutos da APA, uma nova divisão precisa de duas coisas. A primeira é a assinatura de pelo menos 1% dos membros, ou seja, cerca de 1900 pessoas. A segunda é a aprovação por dois terços dos presentes numa reunião do Conselho de Representantes. A próxima reunião está marcada para fevereiro.
A iniciativa mostra quanto o campo mudou nos últimos anos. Em 2023, Lynn Bufka, responsável da APA pela área da prática clínica, disse à The Microdose que a associação ainda não tinha uma posição formal sobre psicadélicos. Acrescentou que a APA só emite orientações quando a evidência científica é clara. A APA de psicologia não deve ser confundida com a American Psychiatric Association. Essa associação considerou, em 2022, que a evidência era insuficiente para apoiar o uso clínico destas substâncias fora de ensaios aprovados.
Criar uma divisão não equivale a publicar diretrizes clínicas, mas dá à APA uma estrutura onde estas podem vir a ser elaboradas. Falta saber se a petição reúne as assinaturas necessárias até à reunião de fevereiro.
