Prática Profissional

Qual o Papel da Intervenção Psicológica na Terapia com Psicadélicos

Dois estudos recentes — um publicado no JAMA Network Open (2026) por Florineth et al. e outro na General Hospital Psychiatry (2025) por Hultgren et al. — chegam a conclusões distintas sobre a influência da quantidade de terapia na melhoria dos sintomas depressivos. Em conjunto, oferecem um retrato complexo sobre como, quanto e quando a intervenção psicológica deve integrar estes tratamentos emergentes.

Ambas as equipas realizaram meta-análises de ensaios clínicos com psilocibina ou LSD, focados sobretudo em depressão major e depressão resistente ao tratamento. Florineth et al. analisaram 12 ensaios clínicos, num total de 733 participantes, examinando várias métricas como o número e a duração (em horas) das sessões de terapia, o número de sessões de dosagem, a duração total do tratamento (em semanas), os dados demográficos da amostra e os critérios de diagnóstico. Os resultados revelaram uma associação significativa entre mais horas de preparação e maiores reduções dos sintomas, mas nenhuma associação com as horas de integração ou a duração total do tratamento. 

Este estudo defende que mais sessões de preparação se associam a melhores resultados antidepressivos. Em contraste, não encontram evidência robusta de que as sessões de integração pós-experiência desempenhem papel significativo no desfecho clínico. As conclusões são prudentes, mas sugerem que o trabalho prévio — psicoeducação, criação de aliança terapêutica, definição de expectativas — pode modular a forma como os participantes vivem e processam a experiência psicadélica.

Hultgren et al., numa meta-análise igualmente pioneira, procuraram determinar se o número total de horas de terapia influenciava os resultados clínicos. A sua conclusão é direta: não encontraram relação significativa entre mais horas de terapia e maior redução de sintomas depressivos. Embora confirmem o efeito antidepressivo global da psilocibina, os autores concluem que o volume total de terapia não é o motor principal da mudança. E que heterogeneidade dos protocolos, a inconsistência do que é considerado “terapia” e a pobre descrição dos componentes interventivos tornam difícil atribuir efeitos claros à dimensão terapêutica. No final, deixam uma pergunta no ar: será que a terapia, tal como atualmente implementada nos ensaios, é demasiado variável ou inadequadamente mensurada para permitir conclusões firmes?

Os dois estudos convergem num ponto essencial: a intervenção psicológica nos ensaios de PAT reportados na literatura é uma caixa negra, com fraca descrição, escassa padronização e grande heterogeneidade entre equipas e centros.

Florineth et al. sublinham que muitos estudos nem sequer especificam o modelo teórico, o conteúdo das sessões ou o nível de formação dos terapeutas. Hultgren et al. apontam lacunas semelhantes, alertando para o risco de confusão entre apoio psicológico básico e psicoterapia estruturada. Ambos os artigos defendem a necessidade urgente de manuais terapêuticos claros, avaliação de fidelidade, e métricas mais finas para descrever a intervenção.

Para profissionais de saúde mental, a mensagem é dupla: promissora e cautelosa.Por um lado, ambos os estudos confirmam que as terapias assistidas por psicadélicos têm efeitos antidepressivos consistentes, replicados em múltiplos ensaios e duradouros em parte dos pacientes. Por outro lado, a incerteza sobre o papel exato da psicoterapia significa que a transposição destes protocolos para sistemas de saúde depende de clarificar:

  • Qual o modelo terapêutico mais eficaz? (ACT, psicoterapia de apoio, psicodinâmica breve, outros?)
  • Qual o número mínimo de sessões que garante segurança e eficácia?
  • Que competências e formação devem ter os terapeutas?
  • Que aspetos da preparação são mais determinantes? Aliança terapêutica? Expectativas? Regulação emocional?

Enquanto Florineth destaca o valor da preparação, Hultgren questiona se os ganhos não seriam alcançados mesmo com menos sessões — uma questão com implicações diretas em custos e acesso.

Finalmente, os dois artigos apontam para a necessidade de estudos que permitam isolar o efeito da substância, da relação terapêutica, da preparação psicológica e da integração narrativa da experiência psicadélica.Num momento em que várias agências reguladoras debatem a aprovação destas terapias, a comunidade clínica deve resistir tanto à euforia simplista como ao ceticismo redutor. As terapias com psicadélicos não dispensam a psicoterapia — mas ainda estamos longe de saber quantas sessões, de que tipo, e com que impacto específico.

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