Opinião

Experiências Psicadélicas… Sem Usar Substâncias Psicadélicas

Será possível ter uma experiência psicadélica sem recurso a substâncias psicadélicas? Será possível aceder a uma experiência mística / transcendental / transpessoal sem recurso a substâncias psicadélicas? Será possível ter uma experiência samadhi, ou seja, uma experiência de comunhão com o universo – uma experiência de iluminação interna – sem recurso a psicadélicos? Será possível explorar o universo psicadélico sem utilização de substâncias psicadélicas?

A resposta a estas questões é afirmativa. Existem vários métodos e técnicas que, sem o recurso a substâncias psicotrópicas, permitem aceder a Estados Não Ordinários de Consciência (ENOC) e, assim, vivenciar estados semelhantes ao das experiências psicadélicas. Neste artigo são descritas, de forma breve, algumas das metodologias (ou práticas) mais conhecidas neste contexto. No final do artigo, será partilhada uma parcela da experiência pessoal do autor neste contexto.

O termo “psicadélico” foi criado pelo psiquiatra Humphrey Osmond durante correspondência escrita com o autor Aldous Huxley e apresentado à Academia de Ciências de Nova York por Osmond, em 1957. Tem origem nas palavras gregas psyché – alma ou mente; e delein – manifestação. “Psicadélico” tem sido assim descrito como significando manifestação da mente. Este termo define um grupo específico de substâncias com propriedades psicoativas, grupo também designado por alucinogénios, ou como substâncias psicotomiméticas (termos entretanto abandonados). Mais tarde, Grinspoon e Bakalar (1979) definiram “psicadélicos” como substâncias não aditivas, que não causam grandes distúrbios fisiológicos ou psicológicos, embora produzam, de forma notória, mudanças no humor, de perceção e de pensamento, semelhante ao que por vezes é encontrado em sonhos, flashbacks, em estados psicóticos e em experiências de êxtase religioso.

Numa “viagem psicadélica” é possível aceder a Estados Não Ordinários de Consciência (ENOC) de forma temporária, o que representa um estado alterado face ao estado de consciência típico da vigília.

Numa “viagem psicadélica” é possível aceder a ENOC de forma temporária, o que representa um estado alterado face ao estado de consciência típico da vigília. E esta é a característica comum, e a que mais se salienta, em todas estas experiências ditas psicadélicas, com ou sem a utilização de substâncias psicadélicas.

Há também quem chame a um ENOC um estado de “consciência psicadélica”. Este conceito foi criado em 1966 por Arnold M. Ludwig, mas começou a ser mais utilizado mais tarde em 1969 por Charles Tart. Ludwig começou por definir que este estado alterado pode ser induzido de várias formas em termos fisiológicos, psicológicos ou farmacológicos, criando uma alteração na experiência subjetiva de funcionamento psicológico. Mais tarde, Tart define “estado alterado de consciência” como um estado mental induzido por fatores fisiológicos, psicológicos ou farmacológicos, que pode ser reconhecido subjetivamente pela pessoa, e que representa uma forma diferente de funcionamento normal da mente do indivíduo, verificando-se um maior foco nas sensações internas e nos processos mentais, alterações na forma de pensar e uma deterioração gradual na capacidade em reconhecer a realidade comum. Existem outras características comuns a estas experiências, como é o caso da alteração da perceção sensorial, nomeadamente ao nível visual, que leva à formação espontânea de padrões visuais geométricos, caleidoscópios, e mandalas, assim como de imagens claras de pessoas, animais, seres, objetos, etc., que fluem no campo visual, não só com os olhos fechados, mas também com os olhos abertos.

Atualmente, um dos fenómenos neurofisiológicos que mais se discute como estando associado aos ENOC é a redução da atividade da chamada Default Mode Network (DMN), ou “rede de modo padrão”, uma rede cerebral em grande escala, composta principalmente pelo córtex pré-frontal medial, córtex cingulado posterior pré-cuneiforme, e giro angular. Crê-se que a DMN é responsável, em boa parte, pelo nosso funcionamento mental diário, pelo ego e raciocínio, que se torna por isso ativa quando raciocinamos, quando desempenhamos tarefas, quando pensamos nos outros ou em nós próprios, quando nos lembramos do passado e planeamos o futuro. A viagem psicadélica parece interromper o funcionamento normal desta rede e abrir espaço para o novo – novas ideias, novas intuições e mesmo epifanias típicas dos ENOC.

O psiquiatra checo Stanislav Grof, um dos fundadores da psicologia transpessoal e um dos pioneiros da terapia psicadélica, foi também o criador do método da Respiração Holotrópica. Grof trouxe profundas descobertas para a ciência e para a psicologia. Fez um alargamento do mapa da consciência, ao perceber que o acesso aos ENOC – quer através dos psicadélicos, quer através de outras formas, como a respiração – não se limita a explorar a nossa memória biográfica, como se pensava até à altura, mas torna possível aceder a memórias mais profundas, nomeadamente as perinatais, que são todas as experiências próximas no nascimento. O nascimento, segundo este autor, mas também segundo Otto Rank, é um dos maiores traumas do ser humano. Assim, é possível que as experiências perinatais se manifestem e permitam tomar consciência e transformar padrões de comportamento, uma vez que a forma como nascemos pode condicionar a forma como vivemos. Grof descobre também que, no mapa de consciência, fazem parte as experiências transpessoais ou transcendentais / místicas, que nos levam para além do corpo, da mente e da personalidade. Estas abrem a possibilidade a fenómenos como a identificação com animais, minerais, seres alienígenas, memórias de vidas passadas, experiências de união com o todo, experiências de êxtase, dissolução e morte do ego, e experiências de quase morte, entre outras.

Os estudos liderados pela equipa de Roland Griffiths permitiram, entretanto, entender melhor como a ingestão de psicadélicos (como a psilocibina) pode levar a experiências místicas, como as que descreveu Grof no seu mapa da consciência. Um estudo de 2011 da Universidade Johns Hopkins identificou experiências deste tipo, através da utilização de questionários psicométricos, observando que a psilocibina “ocasiona experiências místicas pessoais e espiritualmente significativas que predizem mudanças de longo prazo em comportamentos, atitudes e valores.” Há muitos anos que se sabe que os ENOC não são exclusivos das experiências com o uso de substâncias psicotrópicas como a psilocibina, LSD, DMT, e mescalina, entre outras. O objetivo deste artigo é ajudar a descobrir como é possível aceder a todas as dimensões e vivências descritas em cima, sem recurso a estas substâncias, mas alcançadas com métodos como a respiração, a meditação, a dança, ou a privação sensorial (entre outras).

1. Meditação

A prática meditativa permite uma abstração dos pensamentos e permite dirigir a consciência para um estado mais global que não apenas a mente.

A meditação, segundo as tradições orientais, é a capacidade que as pessoas têm de se abstrair dos pensamentos e permitir dirigir a consciência para um estado mais global que não apenas a mente. Evidências neurofisiológicas de Judson Brewer e Robin Carhart-Harris sugerem que, tal como acontece com os psicadélicos, alguns tipos de meditação podem interromper a DMN, referida anteriormente, fazendo por isso reduzir a ruminação e a divagação mental. Com efeito, estes dois tipos de experiência, a meditação e o uso de psicadélicos, reequilibram a atividade do nosso ego, criando mecanismos para que o nosso cérebro possa “descansar” em determinados momentos de agitação do mesmo. Além disso, descobriu-se que, tanto os psicadélicos como a meditação, diminuem a reatividade nas regiões do cérebro que processam o medo, apresentando por isso semelhanças nos resultados. Uma consequência comum da meditação é o aumento da capacidade de viver mais no momento presente e de forma mais consciente, algo que também parece resultar na toma de alguns psicadélicos. Existem inclusive alguns mestres e gurus que indicam que o caminho da meditação pode demorar mais tempo a ser integrado mas, com a prática continuada no tempo, pode tornar-se mais sólido (não tão temporário e transitório) face ao que acontece com a ingestão de psicadélicos.

2. Respiração Holotrópica

A Respiração Holotrópica (RH) foi desenvolvida por Stanislav Grof, um psiquiatra checo formado em Praga nos anos 50, e pela sua mulher Christina Grof. Este método foi criado durante a década de 1970, tendo ao autores começado a facilitar workshops em 1976, no Instituto Esalen, na Califórnia. Durante mais de 10 anos, Stanislav e Christina Grof eram as únicas pessoas a oferecer este novo método de autoexploração, tanto em Esalen como em diversas partes do mundo como na América do Norte, México, América do Sul, Austrália, Índia, Japão e em vários países da Europa. Para além da RH, existem outras práticas respiratórias controladas e intencionais com o objetivo de se aceder a ENOC, melhorar o bem-estar geral do ser humano, assim como contribuir para o seu autoconhecimento. Entre os mais conhecidos, estão os métodos do Rebirthing, Wim Hof Method, Respiração Biodinâmica, Transformational Breath.

Sessão de Respiração Holotrópica.

Segundo a literatura, a RH é uma técnica de respiração intensa que pode induzir a obter um estado psicadélico tão poderoso, vívido e potencialmente transformador de vida quanto qualquer substância psicotrópica. Stanislav Grof foi um dos pioneiros da terapia psicadélica, sendo um dos psiquiatras com mais experiência clínica na área da psicoterapia assistida por psicadélicos. Mais tarde, quando começou a trabalhar com a RH, percebeu que este método de respiração levava a estados semelhantes aos obtidos com psicadélicos, com a vantagem de ser uma viagem “natural”, ou seja, sem a necessidade de ingestão de substâncias psicadélicas – cuja produção, distribuição e consumo haviam, entretanto, sido criminalizados. O trabalho de Grof permitiu perceber que era também possível aceder ao seu mapa da consciência (das experiências biográficas às experiências perinatais e transpessoais) através da respiração. De acordo com James Eyerman, um psiquiatra da Califórnia, num estudo com 482 pacientes psiquiátricos internados no Centro de Estresse da Hyland Behavioral Health em Missouri foram conduzidas sessões de RH, foi verificado que 82% dos participantes relataram ter experiências transpessoais; 16% disseram que reviveram experiências de vidas passadas, incluindo duas pessoas que tiverem experiências perinatais. Apenas 2% referiram não ter tido qualquer experiência.

3. Jejum

A prática do jejum como conexão com a espiritualidade é defendida por diversas religiões. No judaísmo, temos o Yom Kipur, ou Dia do Perdão, em que os fiéis ficam um dia inteiro em jejum, como forma de se aproximarem de Deus. Existem outras práticas não judaicas, como os essénios que podem ficar até 40 dias em jejum para “purificar o corpo e aumentar a comunhão com o divino”. Esta prática também é comum no hinduísmo, cujo objetivo é claramente a união com Deus, sendo usada em vários momentos, ao serem iniciados, antes do casamento, entre outras situações. Segundo a tradição muçulmana, o nono mês lunar do calendário islâmico deve ser dedicado à reflexão acerca dos próprios atos, sendo esse conhecido período do Ramadão, onde se jejua do nascer ao pôr do sol, focando-se na purificação espiritual. Os nativos americanos têm também uma prática comum que é a “busca da visão” (vision quest), onde os participantes ficam um período de tempo no meio da natureza, consumindo apenas água (e, por vezes, nem água) de forma a esvaziarem totalmente a sua mente, dando espaço a novas intuições e visões na sua vida. O jejum e o isolamento são elementos chaves nesta prática.

A ciência sugere que o jejum desencadeia uma mudança nos recursos que o corpo utiliza como fonte de energia, ou seja, o metabolismo em vez de usar apenas glicose para alimentar o corpo, passa a usar cetonas. As cetonas são um tipo de ácido produzido pelo fígado a partir da gordura. O facto de se utilizar cetonas durante os períodos de jejum e posteriormente a utilização de glicose após a alimentação, processo que se designa por troca metabólica, provoca no organismo, o aumento da resiliência, a produtividade do cérebro e o aumento no seu sistema de suporte. Segundo Matthew Phillips, um neurologista do Hospital Waikato, na Nova Zelândia, conhecido pelo seu trabalho com dietas cetogénicas, existem vários possíveis efeitos na saúde do cérebro associados ao jejum, incluindo a neurogénese, benefícios cognitivos e psicológicos, resiliência a doenças neurológicas, o atraso dos efeitos do envelhecimento. Fazer jejum pode ser equiparado a um reset físico e emocional. Muitas pessoas reportam uma grande vivacidade interna, um apuramento dos sentidos, um aumento da rapidez de raciocínio, e a sensação de atenção plena, onde tudo se torna mais claro. Sabe-se que os jejuns levam a ENOC e têm várias semelhanças a dosagens moderadas de alguns psicadélicos.

4. Privação de sono

Sabe-se também que a privação de sono é uma forma de se aceder a ENOC. Grof menciona que esta foi a sua primeira forma de aceder a estes estados, muito antes de criar a terapia psicadélica e a RH. Grof teve algumas semanas sob o controle dos nazis, e sempre que este adormecia era acordado e obrigavam-no a falar de forma a tentar desvendar algumas informações que os nazis acreditavam que o psiquiatra escondia. A sensação é de um profundo relaxamento, a comunicação torna-se com menos tabus, falha o equilíbrio e perde-se o controle de nós próprios e do mundo ao nosso redor. Algumas das descrições da privação de sono, são semelhantes às vivências psicadélicas. No entanto, é conhecido que a privação de sono repetida causa sérios problemas para a saúde humana.

5. Privação Sensorial

As experiências de privação sensorial têm a característica comum de privar os participantes de alguns dos sentidos ou até de todos eles para induzir experiências profundas, também comparáveis com viagens psicadélicas. Descrevem-se de seguida algumas delas.

5.1. Tanques de Isolamento ou Tanques de Flutuação

Os tanques de privação sensorial, mais conhecidos como tanques de isolamento ou tanques de flutuação, são recipientes à prova de som, com 400 a 600 litros de água à temperatura do corpo, cerca de trinta centímetros de altura, com sais de Epson ou sulfato de magnésio. Quando a pessoa se deita nesses tanques, é fechada a parte superior do tanque e a pessoa fica deitados como numa cápsula para criar uma total ausência de estímulos podendo levar a profundos níveis de consciência. É um verdadeiro reset e, muitas das vezes, um retorno ao útero materno.

Exemplo de um Tanque de Flutuação.

Estes tanques foram criados em 1954 por John C. Lilly, um visionário científico que estudou psicofarmacologia e fez contribuições significativas para a compreensão dos psicadélicos, da psicologia e da consciência humana. Atualmente encontramos Spas e espaços de relaxamento com estes tanques de flutuação. Algumas investigações demonstram que esta terapia de flutuação tem benefícios em situações de depressão, ansiedade, redução de stress, melhoria na qualidade do sono e aumento da atenção plena. Vários utilizadores relatam ter experiências semelhantes aos efeitos de algumas substâncias psicadélicas, como alterações na perceção espaço temporal, aumento da criatividade, imaginação, intuição, aumento do bem-estar geral, projeções astrais, assim como até experiências místicas ou transpessoais.

5.2. Câmaras Anecóicas

Exemplo de uma Câmera Anecóica com privação total de som.

Os tanques de privação sensorial são à prova de som, mas não são completamente silenciosos, uma vez que se pode ouvir o barulho da água e outros ruídos ambientais dentro do tanque. Para experimentar a privação total de som, surgiram outras instalações chamadas câmaras anecóicas dos Laboratórios Orfield em Minneapolis, Minnesota. São câmaras tão silenciosas que registam um nível negativo de decibéis, uma vez que são constituídas por fibra de vidro ao redor da sala, de modo que qualquer ruído dentro da câmara desapareçe de imediato nas paredes em fibra de vidro. Além disso, essas salas são constituídas por paredes de 30 centímetros de espessura de betão, o que permite insonorizar por completo os ruídos. Segundo algumas pessoas que entram nestas camaras, por vezes a reação inicial é algum desconforto, inclusive algumas tonturas. O silêncio é tão grande que se consegue ouvir claramente o estômago a funcionar, o engolir da saliva, assim como o som das articulações quando nos movimentamos. Outras pessoas consideram uma experiência altamente meditativa e relaxante e os relatos das pessoas que têm experiências nestas câmaras assemelham-se muito aos efeitos das experiências psicadélicas, pela capacidade que têm de mergulhar num silêncio profundo, capaz de trazer vivências antigas à consciência.

6. Sobrecarga de Estímulos

Ao contrário do ponto anterior, onde a privação dos sentidos induz estados alterados de consciência, sabe-se que o contrário, ou seja, a sobrecarga de estímulos, também leva a efeitos semelhantes aos da privação. Quando se usa, durante um tempo prolongado, o movimento do corpo, com uma respiração forte, um som intermitente como a batida dos tambores, ou qualquer outra música que nos induza a esse movimento, é possível chegar a um estado de transe muito semelhante aos efeitos dos psicadélicos.

6.1. Ritual Trance Dance

Este é um ritual baseado em técnicas ancestrais do xamanismo. Foi uma descoberta extraordinária perceber que, sem a utilização de substâncias psicotrópicas é possível aceder a estados não ordinários de consciência, semelhantes aos estados psicadélicos de consciência, com uma intensidade e profundidade semelhantes. Em geral, a dança, o rodopio dos dervixes sufis e muitas outras formas de movimento do corpo têm como principal objetivo entrar num estado de transe. A combinação de vários estímulos, como o som, a percussão, o movimento do corpo, a respiração induz diretamente a estes estados alterados de consciência.

Os tambores podem ser usados sozinhos ou em combinação com a dança ou cânticos.

6.1. Drumming Journey

Estas jornadas de encontro com o “animal de poder” através da utilização do tambor são poderosas e levam a ENOC apenas com a simples batida do tambor. É uma espécie de transe que faz viajar para diferentes dimensões da consciência. Tem sido para mim um grande esclarecimento estar em contacto com o meu animal de poder, pelas mensagens que me trazem, pela sua inspiração e poder pessoal que me traz. O tambor é uma ferramenta importante nas culturas indígenas, nomeadamente na tradição xamânica, de forma a alcançar estados de transe, frequentemente descritos como “jornadas”. Os tambores podem ser usados sozinhos ou em combinação com a dança ou cânticos.

O ritmo usado nestes tambores com estes fins xamânicos é tipicamente um ritmo constante de cerca de 4 a 5 batidas por segundo.  Essas frequências correspondem à frequência theta, atividade dominada no cérebro que também parece facilitar experiências visionárias com imagens vívidas, estados alterados de consciência e também experiências de ocorrências paranormais. Estas experiências de acesso ao “animal de poder” podem ser inesquecíveis, trazendo mensagens muito esclarecedoras. Não são apenas produto da mente, são bem mais do que isso e podem dar acesso ao inconsciente coletivo Junguiano, aos nossos arquétipos: são profundas viagens xamânicas. Estes animais de poder estão igualmente muito presentes nas viagens psicadélicas.

6.2. Batidas Binaurais

A música em geral tem o poder de guiar as experiências internamente, mas as batidas binaurais têm a particularidade de induzir a um profundo estado de relaxamento, favorecendo o sono, libertando endorfinas e levando a ENOC. Estas experiências com estas sonoridades são semelhantes à indução por relaxamento ou à antiga técnica de yoga que é o yoga nidra.

Em 1839, Heinrich Wilhelm Dove, descobriu que o som tem a capacidade de alterar o funcionamento do cérebro, compreendendo igualmente que, quando os sinais de duas frequências diferentes são apresentados separadamente, uma para cada ouvido, o cérebro deteta a variação de fase e tenta conciliar essa diferença sincronizando o funcionamento dos hemisférios esquerdo e direito, resultando em benefícios terapêuticos. As batidas binaurais são usadas para aceder a ENOC. Concentra-se a atenção na combinação dessas batidas de áudio que são misturadas com música. O elemento de batimento binaural está associado a uma resposta eletroencefalográfica no cérebro. Muitos dos estados de consciência dessas batidas apresentam frequências únicas de ondas cerebrais hemisfericamente sincronizadas. Estas batidas binaurais podem levar a estados semelhantes ao dos psicadélicos.

7. Túnel de Vórtice

Exemplo de túnel de vórtice.

O túnel de vórtice é um corredor com paredes giratórias iluminadas com luzes negras. Ao entrar nesse túnel, a tinta fluorescente dessas paredes giratórias dá acesso a um mundo completamente psicadélico, multicolorido. Parece que há uma sensação de se estar a cair para um abismo rodeado de todo um psicadelismo semelhante à profusão de cores de uma viagem psicadélica. A sensação de euforia torna-se bem presente, assim como uma forte sensação de desorientação que permanece presente, logo a seguir a sairmos desse mesmo túnel. Uma verdadeira viagem psicadélica.

8. Hipnose

A hipnose é um pouco controversa face a ser ou não um estado não-ordinário de consciência. No entanto, existem alguns estudos cujos participantes afirmam que a hipnose é um profundo estado de transe. Existem vários relatos de pessoas que descrevem a hipnose como uma viagem psicadélica, acedendo a situações de vidas passadas, a visualizações semelhantes a flashbacks, etc. A hipnose tem sido reconhecida pela capacidade de reconectar padrões e condições específicas e alterando a rede neurofísica. Os estados de transe a que misteriosamente se consegue aceder permitem reforçar as suas semelhanças com as viagens psicadélicas.

9. Eye-gazing

Exemplo de um ritual de Eye Gazing.

O raja yoga consiste em desenvolver a atenção e a concentração através de vários exercícios que nos estimulem a concentração. Alguns deles consistem em observar durante prolongados períodos de tempo para um ponto, fixando o nosso olhar numa parede, numa imagem, ou até nos olhos de outra pessoa. Embora não seja comumente considerado um ENOC, olhar fixamente para um ponto e sobretudo para os olhos de outra pessoa demonstrou provocar distorções de imagens com importância relevante para o observador. Sabe-se que, aproximadamente em apenas 10 minutos de olhar nos olhos de alguém, começamos a sentir efeitos semelhantes ao de algumas experiências psicadélicas. Em 2014 e 2015, o psicólogo Giovanni Caputo, da Universidade de Urbino, conduziu alguns ensaios clínico com voluntários que foram convidados a olharem nos olhos de outras pessoas e também a olharem-se a si próprios ao espelho, com resultados surpreendentes. Foram relatados dismorfia facial, distorções de cores e de sons e perda de memória, assim como os principais revelam um maior sentimento de identidade, maior clareza mental e fortalecimento da autoestima. Considera-se por isso, que este exercício tem várias semelhanças aos estados psicadélicos de consciência.

10. Lumenate

Exemplo de utilização da aplicação Lumenate.

Tom Galea e Jay Conlon são os fundadores da Lumenate, uma aplicação para smartphones onde, através da utilização de sequências de luz estroboscópica projetadas pela lanterna do telefone, experimentadas com os olhos fechados, a aplicação leva o cérebro do utilizador a um estado não ordinário de consciência. Quando essa luz é emitida nos olhos de uma maneira específica, faz com que os neurónios reajam a um ritmo sincronizado que conduz o cérebro com segurança a um estado de consciência profundamente meditativo e que pode considerar-se psicadélico.

A pesquisa da Lumenate revela uma diminuição na atividade numa região do cérebro designada de “rede de modo padrão”, como foi anteriormente referido, ou seja, permite uma diminuição da sensação de presença do ego, levando por isso a uma expansão da consciência, a visualização de caleidoscópios, algo típico das viagens com psicadélicos. Esta ferramenta, quando bem utilizada, pode ser mais do que apenas uma viagem divertida.

11. Sweat Lodge / Temazkal / Cabana de Suor

Estas são as saunas sagradas utilizadas na América Central pelos indígenas com o intuito de purificar, através do calor intenso que é gerado, utilização de ervas próprias e cânticos que induzem a ENOC. São estruturas relativamente simples, construídas com canas ou ramos próprios, existindo um buraco no centro, onde são colocadas várias pedras quentes. Essa estrutura está coberta de mantas e ao começar a cerimónia são trazidas essas pedras quentes para o centro da cabana, é colocada água e ervas purificadoras e assim segue a cerimónia.

Exemplo de uma Sweat Lodge ou “cabana de suor”.

Estas cabanas de suor são muito importantes para trabalhar temas como a claustrofobia., uma vez que se sabe que dentro dessas cabanas não há escapatória fácil e por isso é uma forma de trabalhar a claustrofobia, de trazer mais ao presente e levar a mente a não se perder com mecanismos de fuga. Pode ter benefícios para o corpo pelo suor e toxinas que são libertadas; e para a mente por se conseguir governá-la e mantê-la mais firme no espaço e benefícios no espírito, pelos cânticos que são entoados e fazem libertar aspetos do inconsciente; pelas pedras quentes, pelas ervas medicinais, pela analogia com a magia do útero da Mãe Terra. Existem muitos relatos de pessoas que acedem a ENOC e a alterações da perceção em termos espaciais e temporais, semelhantes às experiências psicadélicas.

12. Experiência de Pico

As experiências de pico anunciadas pelo psicólogo Abraham Maslow nos anos 60 do século passado, são experiências normalmente vivenciadas por pessoas saudáveis emocionalmente e que relatam vivenciar estados místicos ou transpessoais, ou de pico, por um período prolongado de tempo. Estas experiências podem surgir por estarmos apaixonados, quando temos um filho, ou em vários outros episódios que nos levam a um estado de arrebatamento. Um estado de felicidade tal que nos eleva a consciência por um período prolongado de tempo. Abraham Maslow interessou-se muito pelas qualidades das pessoas que parecem funcionar de forma mais completa, saudável, ajustada e adaptada. Segundo ele, todas as pessoas têm o potencial de se autorrealizar, motivadas por desejos intrínsecos. Ao longo da sua vida percebeu que pessoas autorrealizadas partilham de algumas características comuns como eficiência e precisão na perceção da realidade, aceitam-se melhor a si mesmas e à natureza, são mais espontâneas e “naturais” nos seus pensamentos e emoções, e são mais independentes e autónomas para alcançar a satisfação. Formam vínculos profundos, mas apenas com algumas pessoas, têm um sentido de humor filosófico, atencioso e não hostil. Recorrem à criatividade na busca das soluções e também possuem estratégias para despertá-la quando a sentem adormecida. Mantêm algum desapego interno da cultura em que vivem. Quando é vivenciada de forma muito intensa esta autorrealização leva às chamadas experiências de pico.

A Minha Experiência Pessoal

Rui Sebök Bizarro (autor do artigo)

Como nota final, partilho algumas das experiências vivenciadas por mim no contexto deste artigo. Começo pela meditação, que foi umas das primeiras formas de eu aceder a ENOC. A descoberta da meditação, permitiu-me aumentar muito o meu nível de concentração, passei a tornar-me um ser humano muito mais centrado, com resultados académicos melhores e uma capacidade muito maior de controlar a minha ansiedade e hiperatividade. Além disto, a meditação permitiu-me algumas experiências profundamente impactantes, que comparo inteiramente com experiências psicadélicas.

1) Acesso a memórias antigas que estavam apagadas até ao momento. Lembro-me da minha vida a partir dos cinco anos e recordo-me de ter o pensamento que agora sou consciente das coisas e que tudo para trás parecia ser um sonho. Com a prática da meditação fui recordando aspetos da minha vida que me levaram a lembrar-me de ser bebé, recém-nascido com menos de um ano de vida. Tive a possibilidade de confirmar com a minha Mãe vários desses aspetos, pois fui recordando inúmeros detalhes da casa onde vivíamos e outras situações;

2) Experiência espacial. Através da meditação tive uma experiência de dissolução de fronteiras, como se o corpo se dissolvesse e fizesse parte do todo – uma experiência de profunda expansão da consciência, transpessoal, mística que foi profundamente marcante para a minha consciência e para minha vida;

3) Experiência temporal. Através da meditação tive outra experiência igualmente marcante, mas bem diferente da anterior, pois esta foi a um nível temporal. Como se o tempo se tornasse num só. Passado, presente e futuro transformam-se numa linha temporal como estamos habituados, convergindo para um ponto apenas, como se se condensasse num único ponto. Estas experiências que tive com a meditação, têm de facto muitas semelhanças às vivências psicadélicas que fui tendo ao longo da vida.

Em segundo lugar, partilho a vivência da Respiração Holótrópica, que foi um divisor de águas da minha vida. Apesar de já ter tido outras experiências que me induziram outros estados profundos de consciência, ao fazer a minha primeira sessão com esta respiração, com dezanove anos e com o próprio Stanislav Grof, percebi que foi aí que tive a minha primeira verdadeira experiência com ENOC e que me levou a entender, de facto, o véu que nos rodeia, que tudo parece um pouco nublado e que esconde o Sol que existe do outro lado. Tive uma experiência de êxtase, de unidade, de fusão com o todo, de me sentir para além deste corpo. Senti aquilo que se designa de dissolução de fronteiras ou dissolução do ego. Uma sensação indescritível que me motivou, para toda a minha vida, a explorar estes estados alterados. E o incrível é que tudo isto foi vivenciado apenas com os efeitos da respiração, sem qualquer substância psicotrópica.

“Tive uma experiência de êxtase, de unidade, de fusão com o todo, de me sentir para além deste corpo. Senti aquilo que se designa de dissolução de fronteiras ou dissolução do ego.”

Com a RH tive a possibilidade de explorar muito sobre a minha vida biográfica, da minha vida pessoal, e tive muitas epifanias. Por outro lado, permitiu-me experienciar aquilo que Stan Grof chama de experiências perinatais (i.e., próximas do nascimento). São experiências profundamente esclarecedoras para a nossa vida ao permitirem perceber que muitos dos nossos comportamentos são um retrato desse momento. O contacto com o nascimento é uma das maiores epifanias que podemos ter e que pode contribuir para grandes mudanças de vida, ao percebermos que muitos dos nossos padrões de comportamentos surgem desse momento fulcral. A partir daí, muitos dos “nós” mentais que nos restringem podem soltar-se, permitindo que o nosso “novelo de lã” se abra e nos desbloqueie interiormente, com consequências positivas transformadoras em várias áreas.

Por último, partilho a minha vivência com as experiências de pico, não tão conhecidas quantos as anteriores. Quando estava ainda na universidade, no fim da licenciatura, passei por um dos períodos mais importantes da minha vida, quando tinha cerca de vinte e três anos. Durante muitos meses, quase durante um ano e talvez devido a todas as experiências que fui vivenciando ligadas ao universo da Psicologia transpessoal, sentia um estado felicidade plena. Senti esse estado de forma permanente e durante todos estes meses a minha consciência permaneceu expandida. Tinha uma perceção claríssima sobre a realidade, sentia uma imensa abertura às experiências de vida, sentia-me um ser totalitário, com uma expressividade e espontaneidade muito diferente do meu estado normal. Sentia-me como se tivesse sido tocado pelo divino, num estado de transcendência permanente. Sentia que criava nas pessoas à minha volta ou irritabilidade, ou, pelo contrário, era um gerador de energia e de inspiração. Mais tarde fui pesquisar sobre este tema e percebi claramente que vivi aquilo que Maslow designou de experiências de pico.

Em síntese, todas estas experiências são mais do que meras experiências, são mais do que meros momentos de diversão, e são mais do que apenas sensações transitórias – podem ser experiências extáticas, reveladoras e transformadoras da nossa personalidade. Todas as experiências mencionadas têm o poder de transformar a nossa vida, de nos expandir a consciência, de nos fazer conhecer a nós próprios de forma mais profunda e com maior detalhe. Permite-nos compreender os nossos padrões de comportamento, a razão de repetirmos regularmente as mesmas situações mesmo sabendo que nos prejudicam. Todas estas experiências têm a vantagem de nos levarem a estados tão profundos como as substâncias psicadélicas, mas de forma “natural”, ou pelo menos sem existir a necessidade de ingestão de psicotrópicos. As experiências psicadélicas sem utilização de psicadélicos podem ser uma excelente porta de entrada para o universo psicadélico, nomeadamente para todos e todas que não querem tomar substâncias psicadélicas, mas que querem, ainda assim, explorar esse mundo e beneficiar dos seus efeitos.

Referências

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