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Amanda Feilding

Amanda Feilding (1943-) é a fundadora da Fundação Beckley e é reconhecida como uma figura determinante no renascimento psicadélico. Amanda é inglesa e é conhecida como Lady Neidpath e como Condessa de Wemyss e March. Tem uma propriedade, Beckley Park, perto de Oxford, onde cresceu e voltou depois que seus pais morreram. Interessou-se por psicadélicos, especialmente LSD, na década de 1960, quando tinha vinte e poucos anos. Ela esperava que os psicadélicos fossem o foco principal das neurociências quando a investigação psicadélica terminou abruptamente e seu parceiro e colega explorador, Dr. Bart Huges, foi deportado da Inglaterra para a Holanda.

Em 1998, Amanda Feilding fundou o que agora é a Fundação Beckley, uma importante fonte de investigação científicas e publicações diversas, bem como de consultoria e de defesa da causa dos psicadélicos, abrindo caminho para que estas substâncias se tornem acessíveis em ambientes seguros para uso terapêutico e para a transformação espiritual. Feilding começou no que ela chamou de idade das trevas com o objetivo de fazer renascer a investigação e forçar um reenquadramento legal e científico dos psicadélicos que permitisse que fossem usados em clínicas. Através de evidência científica que mostrava os efeitos dos psicadélicos na consciência e na neuroquímica do cérebro, a investigação ajudou a melhorar a nossa compreensão de como os psicadélicos funcionam. Os estudos também demonstraram benefícios no tratamento da ansiedade, da depressão e da dependência, e também que os psicadélicos ajudam a promover o bem-estar e a criatividade. A Beckley Foundation e seus parceiros ajudaram a psilocibina a receber, em 2017, o estatuto de ‘breakthrough therapy”, tanto pelos reguladores europeus como americanos.

Fundação Beckley fundada por Amanda Feilding

A Sra. Fielding acessorou as Nações Unidas e também governos enquanto trabalhava com investigadores no Imperial College London, na Universidade Johns Hopkins University e outras instituições. Em 2011 ela escreveu uma carta aberta aos governos de todo o mundo recomendando a revisão da convenção das Nações Unidas de 1961 sobre narcóticos para que os países pudessem explorar políticas que atendessem às suas necessidades de administração interna. O ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter, 12 laureados com o Nobel e o arcebispo Desmond Tutu assinaram o documento. Albert Hofmann foi o presidente da fundação Beckley até à sua morte em 2008, aos 102 anos. Ela afirma: “A melhor maneira de superar o tabu e reintegrar os psicadélicos na estrutura da sociedade é realizando investigação científica da mais elevada qualidade”.

Fielding participou em mais de 40 publicações científicas, uma das quais foi o primeiro estudo de imagiologia sobre o impacto do LSD na conectividade do cérebro. A Fundação Beckley acompanhou mais de vinte projetos de investigação psicadélica, incluindo estudos na Austrália usando psilocibina com pacientes com cancro em estado terminal para promover a aceitação e investigar o impacto da microdosagem. Estudos no Brasil investigaram o LSD com neuroplasticidade e neurogénese em animais. Estudos nos Estados Unidos mostraram que os psicadélicos promovem o aumento das sinapses nervosas, possivelmente ajudando a reduzir o declínio cognitivo em pessoas idosas.

Albert Hofmann e Amanda Feilding

Estas investigações aplicam uma metodologia científica rigorosa para mostrar a eficácia da psicoterapia assistida por psicadélicos. A sua investigação sobre psicadélicos em terapia no Imperial College London, o Programa de Pesquisa Beckley-Imperial, começou em 2009. A investigação do Imperial College sobre psilocibina demonstra um notável sucesso no tratamento de pacientes com depressão severa que mostraram pouca ou nenhuma melhora com o tratamento tradicional. O ensaio clínico foi concluído em 2016 e mostrou que todos os indivíduos reportaram pontuações abaixo do nível considerado de depressão moderada conjugado com uma redução significativa nos sintomas que durou até a avaliação de acompanhamento de cinco semanas. Mesmo seis meses depois, houve benefícios significativos daquela sessão de terapia psicadélica, com média ligeiramente acima do limiar considerado para a depressão moderada. Em janeiro de 2019, o estudo entrou na fase 2 com um grupo maior de indivíduos.

David Nutt, neurofarmacologista do Imperial College London, presidiu ao projeto de imagiologia. Ele tinha trabalhado com Amanda Feilding num estudo semelhante sobre a função cerebral em 2005 na Universidade de Bristol. A investigação sobre a neurociência dos psicadélicos incluiu imagiologia por ressonância magnética dos cérebros dos pacientes depois de tomarem psilocibina e descobriu uma redução do fluxo sanguíneo e de uma diminuição da atividade da amígdala, que muitas vezes é hiperativa na depressão e ansiedade, e também demonstrou maior flexibilidade nas conexões das redes cerebrais.  Os ensaios clínicos que utilizaram imagiologia por ressonância magnética descobriram uma diminuição no mecanismo de reflexo condicionado e que há uma maior conectividade cerebral com doses mais elevadas de psilocibina. A investigação com imagiologia identificou a “rede de modo padrão” (default mode network) que está envolvida na depressão, ruminação, pensamento rígido e no stress pós-traumático. Esta “rede padrão” reduziu a sua atividade quando o indivíduo está no estado psicadélico, enquanto que as redes e regiões neurais que anteriormente estavam suprimidas, reagem e aumentam a sua atividade. Os resultados sugerem que a psilocibina parece reduzir a tendência para o controlo repressivo e que pode ainda promover outras ligações, aumentando a comunicação.

Amanda Feilding com David Nutt

Em 2016, a fundação Beckley patrocinou também estudos na Escola de Medicina Johns Hopkins para demonstrar os benefícios da psilocibina no alívio da depressão em pacientes com doenças terminais. Oitenta por cento dos participantes tiveram reduções significativas no humor deprimido, e dois terços relataram que a sua experiência estava entre as cinco primeiras experiências mais significativas das suas vidas. Um estudo sobre tabagismo demonstrou que 80% dos participantes deixaram de fumar após duas sessões de psilocibina de um dia. Estes estudos evidenciam que as profundas experiências emotivas evocadas pelos psicadélicos na terapia podem provocar mudanças duradouras no cérebro e na personalidade. Estas investigações também demonstram que psicadélicos como a ayahuasca atuam a um nível celular que ajuda a restaurar nosso sistema nervoso. Recentemente, a Beckley Psytech, uma nova fundação afiliada que Amanda Feilding ajudou a criar e que o seu filho, Cosmo Feilding-Mellen, preside, angariou cerca de 18 milhões de dolares para avançar na investigação de psicadélicos de segunda geração, como o 5-MeO-DMT. A fundação tem também como objetivos testar e desenvolver novos compostos para uso em doenças e condições neuropsiquiatricas.

Amanda Feilding e seu filho Cosmo Feilding-Mellen, diretores da Beckley Psytech

Amanda Feilding participou na redação de um artigo de 2016 com Soler, Elices e outros cientistas para mostrar o potencial terapêutico da ayahuasca para promover capacidades relacionadas à atenção plena (mindfulness). Estudos realizados pelo Programa de Pesquisa Beckley / Sant Pau em Barcelona, Espanha, revelaram que o uso da ayahuasca ajudou a facilitar a atenção plena e a promover a capacidade de observar os pensamentos e sentimentos com uma objetividade que pode ajudar as pessoas a aliviar a depressão, a ansiedade, o luto e o stress pós-traumático. A alteração da plasticidade cerebral que ocorre após a ingestão da ayahuasca parece contribuir para os seus efeitos antidepressivos. Investigação com imagiologia revelou como a ayahuasca também reduz o controlo da rede cerebral “rede de modo padrão”, e forneceram evidências convincentes de que isto pode explicar o poder terapêutico da bebida. Uma descoberta muito interessante é que os compostos harmina e tetraidroharmina da ayahuasca estimulam o crescimento de novas células nervosas nas células-tronco do hipocampo, transformando-se em neurónios totalmente maduros. Os resultados foram apresentados na Interdisciplinary Conference in Psychedelic Research em 2016 e publicados na revista Scientific Reports. Jorda Riba, cientista e co-diretor dos estudos com a ayahuasca, mostrou em estudos com animais vivos que estes compostos estimulam o nascimento de novas células nervosas, processo donominado por neurogénese, que ocorre naturalmente no hipocampo, mas não numa taxa suficiente para repor a perda associada ao declínio cognitivo no envelhecimento.

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